Novela das sete, audiência razoável, cena 1: a jovem mocinha está lendo, em casa, sozinha, usando um bonito par de óculos. A campainha toca e ela se levanta para atender à porta, mas não sem antes “despir-se” de seu acessório indispensável.
Mesma novela, mesmo capítulo, cena 2: o casal, na faixa dos quarenta anos, está num jantar romântico de início de relacionamento. Na hora da sobremesa, o garçom traz um aparador repleto de guloseimas para que a mulher escolha. Imediatamente ela saca sua bolsa e tira uma belíssima peça em acetato, que, além de fazê-la enxergar a sobremesa mais apetitosa, a deixa bem mais bonita. Depois de feita a escolha, ela volta a guardar os óculos.
Por que os óculos foram tão discriminados na trama? Ou melhor, por que as novelas não dão ao nosso produto o valor estético que eles têm?
Essas perguntas motivam várias especulações. Mas antes de tentar respondê-las, precisamos considerar algo gravíssimo: o desserviço que a TV presta ao mercado óptico, toda vez que veicula cenas assim, afetando diretamente todas as etapas de produção: da fabricação de armações e lentes, à venda na óptica. Isso é preocupante se considerarmos o grau de visibilidade de tudo o que aparece numa novela de TV. Tanto, que quem trabalha em óptica sabe: é comum alguém chegar e pedir um par de óculos igual ao do personagem tal, quando, em raras novelas um artista charmoso(a) ou bonito(a) tem como acessório do personagem um par de óculos.
Penso que as entidades competentes devam se pronunciar junto à emissora de televisão, mesmo que seja com uma simples carta para que saibam que os profissionais de óptica estão atentos, já que, sem sombra de dúvida, a propaganda foi negativa (óculos enfeia e atrapalha: essa é a mensagem subliminar) ainda que sendo mostrados num contexto utilitário (a mocinha lia com os óculos, e a mulher só conseguiu enxergar a sobremesa por causa dos óculos).
Os motivos que levam as pessoas que fazem a TV a agirem dessa forma podem ser diversos, mas existem dois que nos chamam bastante a atenção, os quais podem ser comprovados no nosso cotidiano: óculos ainda é fortemente associado apenas à correção visual, ou seja, a falta de saúde, além de comprometerem um visual mais sofisticado e elegante.
Ambas as proposições estão equivocadas. Mais que corrigir uma ametropia, os óculos protegem e proporcionam conforto visual, bastando, para isso, escolher uma das inúmeras lentes e tratamentos disponíveis no mercado. Quanto ao visual do usuário, pessoas de óptica trabalham, com sucesso, para colocar os óculos como importantes acessórios de moda, que sem comprometer o visual, agrega valor estético.
Diante dessa realidade, cabe ao profissional de óptica – principalmente o vendedor - abraçar mais esse desafio, desfazendo os enganos junto ao cliente e trabalhando para que os óculos sejam elevados sempre ao posto de peça principal do vestuário, como diz o professor João Dantas, especialista no assunto.
Quem sabe muito em breve teremos a satisfação de ver numa novela de TV uma mocinha “viciada” em óculos? |